WhatsApp Pay: por que o Facebook escolheu o Brasil como mercado-teste?

26 setembro 2020
Os dados sobre desbancarização que reforçam a oportunidade que o Facebook identificou no mercado brasileiro para considerá-lo como um mercado-teste para o WhatsApp Pay, não apenas por ser o segundo país no mundo com maior número de usuários – atrás apenas da Índia. Um benchmarking entre WhatsApp e WeChat a respeito da revolução que este vem liderando em toda a China, e mais curiosidades!

Em meados de junho de 2020, um dos assuntos mais discutidos no Brasil foi que o WhatsApp passaria a aceitar pagamentos em cartão de crédito e débito, além de transferências. Não apenas isso: o país seria o primeiro a receber essa funcionalidade, até então chamada Facebook Pay, ou WhatsApp Pay (pelo menos neste artigo).

O segmento de meios de pagamento tem despertado a atenção do Facebook, dono do WhatsApp desde 2014. Os números são na casa dos bilhões: cerca de R$ 297 bilhões foram transacionados nos três  primeiros meses de 2020 em cartões de crédito, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). Assim, com os seus mais de 2 bilhões de usuários em todo o mundo – 120 milhões só no Brasil –, o potencial do WhatsApp é tão grande que sua base de usuários é maior do que a de qualquer instituição financeira que opera em território nacional.

A mecânica, encabeçada em parceria com a Cielo e as bandeiras Visa e Mastercard, transformaria o app de mensagens instantâneas em um gateway de pagamento, tal como PayPal, PagSeguro e MercadoPago. A diferença é que, até onde se sabia, essa operação de pagamentos pelo WhatsApp seria restrita a adquirente e bandeiras de cartão citadas.

Assim como a novidade sobre o WhatsApp contar com uma nova funcionalidade pegou o mercado de surpresa, o seu “desfecho” também aconteceu de repente. No entanto, algumas questões ainda pairam na mente das pessoas a respeito desse assunto; e é para tentar responder tais perguntas que levantamos os pontos a seguir.

Cade e BC saíram do grupo. Por quê? 

O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) é responsável pelo recebimento de reclamações de concorrentes de mercados da economia. O Banco Central (BC), que regula o mercado financeiro, se mostrou preocupado com a falta de concorrência nesse processo de pagamentos pelo WhatsApp.

Por causa disso, buscando “preservar um adequado ambiente competitivo, que assegure o funcionamento de um sistema de pagamentos interoperável, rápido, seguro, transparente, aberto e barato”, o BC determinou em 23 de junho que as bandeiras Visa e Mastercard suspendessem operações de pagamentos e transferências por meio do WhatsApp até que o app seja regulado como os demais concorrentes de meios de pagamentos com a garantia de segurança de dados dos usuários.

Em contrapartida, em 30 de junho, o Cade cancelou a suspensão do novo serviço a ser oferecido pelo WhatsApp para transações financeiras. A justificativa apresentada pelo app para revogar a decisão do órgão foi a apresentação de documentos contratuais entre WhatsApp e outras instituições financeiras que comprovavam a não preferência dada a uma única adquirente, como se supôs inicialmente.

Assim que o BC permitir que o WhatsApp se torne oficialmente um novo gateway de pagamento brasileiro, a integração ao PIX estará mais perto do que se imagina. Esta foi, inclusive, uma nota emitida pelo Banco Central a respeito do novo modelo de pagamentos instantâneos por meio de transferências, denominado PIX.

Por aqui é difícil de pagar. Vamos pro zap zap?

Segundo pesquisa do Instituto Locomotiva, 1 a cada 3 brasileiros não possui conta bancária. Ou seja, há 45 milhões de desbancarizados. Apesar disso, essa parcela da população movimenta em torno de R$ 800 bilhões por ano.

Esse estudo também revelou que muitas dessas pessoas são trabalhadores autônomos e ambulantes; exercendo trabalhos cuja renda é obtida a partir de pagamento em dinheiro físico. A má experiência oferecida por alguns Bancos tradicionais é uma das causas da desbancarização.

Uma das motivações para o Facebook tomar o Brasil como um mercado-teste para a adoção do WhatsApp Pay é de que o app é muito utilizado por pequenas empresas. Esse mercado possui mais de 10 milhões de pequenos negócios no país. Mas, apesar de o pequeno empreendedor conseguir oferecer produtos e serviços por meio da versão Business do WhatsApp, ainda não era possível fazer e receber pagamentos de clientes pelo app.

O uso do app aumentou 50% durante a pandemia do novo coronavírus. A utilização para fins comerciais teve aumento de 22% nas classes C, D e E, segundo Behup. Mercadinhos de bairro e padarias passaram a utilizar mais o app em 50%.

Como o WhatsApp faz parte da cultura do brasileiro desde seu surgimento em 2009 (a versão Business nasceu em 2018) e vem se intensificando, a adesão ao pagamento digital por meio do app pode contibuir para um novo modelo de atendimento aos desbancarizados; evitando que guardem “dinheiro no colchão” como vêm improvisando e, assim, também fazer o país se desenvolver mais economicamente.

WhatsApp Pay vai ser o WeChat brasileiro? 

Criado em 2011, pela Tecent, o WeChat é o app mais popular da China, seu país de origem. Assim como o WhatsApp, ele também começou como um meio de troca de mensagens entre amigos. Foi em 2013 que o WeChat passou a operar como carteira digital – com possibilidade de o dinheiro ser investido dentro da plataforma –, transacionando pagamentos em cartões de crédito e débito; tornando-se, assim uma alternativa ao Alipay, que pertence ao Alibaba.

O WeChat revolucionou o mercado de pagamentos móveis na China. Hoje, o superapp permite pagamentos por QR code ou leitura dos habituais códigos de barras. E a sua influência é tamanha naquela cultura que é mais difícil fazer tarefas simples sem sua utilização, como sair para comer em um restaurante, por exemplo. O WeChat facilita o pagamento de turistas a comerciantes chineses para que o recebimento seja automaticamente em moeda local, mesmo que a origem do dinheiro tenha uma nacionalidade diferente.

Ao contrário do que pode ocorrer pelo WeChat, a princípio, o WhatsApp Pay não cobra pelas transações efetuadas no aplicativo. Considerando que o WhatsApp Pay não vai funcionar propriamente como carteira digital, como o Pic-Pay, por exemplo, o dinheiro transacionado não fica armazenado nele.

Por exemplo, quando um usuário resolve pagar pessoas físicas, o pagamento pode ser feito com cartão e é imediato. Já quando se trata de uma transação para pessoas jurídicas, o pagamento será finalizado em até um dia no cartão de débito e dois no crédito. A integração entre Facebook e WhatsApp para o futuro propõe que ao anunciar na aba “Lojas”, que tem função de e-commerce no Facebook, os clientes poderão efetuar compras a partir do WhatsApp.

Conclusão

A estratégia do Facebook é de manter aplicações separadas com o objetivo de oferecer serviços mais completos e pontuais aos usuários, mesmo que, por outro lado, resulte em ocupar um espaço cada vez maior na memória dos smartphones pelas pessoas.

Também conhecido como o app que faz tudo, o WeChat possui mais de 1 bilhão de usuários e a experiência para o usuário é de oferecer um aplicativo com vários outros dentro. As funções encontradas dentro dele são similares às do Slack, Pic-Pay, SnacpChat, Uber, iFood, Google Maps, Instagram, Facebook, WhatsApp, Spotify, Tinder, Vakinha, Airbnb, Quinto Andar, YouTube etc.

Até 2018, os pagamentos digitais eram responsáveis por movimentarem aproximadamente 1/3 do PIB da China, o que equivale a 4 trilhões de dólares por ano. Essa realidade foi construída com a adesão  dos desbancarizados chineses que, assim como no Brasil atual, preferiam o dinheiro em papel moeda a usar cartões de crédito ou débito.

O WhatsApp Pay pode não se tornar e provavelmente nem queira ser o WeChat brasileiro, mas parece estar trilhando um caminho semelhante; e tem grandes chances e liderar essa transformação no mercado financeiro brasileiro.

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